London Business Class

… há fogo.

No último post eu falei sobre a tentativa de previnir incêndios por aqui… e hoje eu quero falar o que acontece quando realmente pega fogo.

Pois bem. Não sei como funciona em outros prédios, mas no qual eu trabalho o processo é bem… diferente.

Como qualquer prédio comercial, temos um alarme de incêndio. E ele funciona. Já disparou algumas vezes nesse um ano e meio que estou trabalhando lá.

Até aí, tudo normal. O problema é que o alarme de incêndio não serve para fazer as pessoas evacuaram o prédio. Ele serve, ao menos inicialmente, para nos avisar que um incêndio foi reportado… mas devemos permanecer sentados, “com os cintos afivelados, até a parada completa da aeronave” (acho que ando viajando muito…).

Brincadeiras a parte, é mais ou menos isso o que eu escuto quando o alarme de incêndio toca. A mensagem é mais parecida com “atenção, um incêndio foi reportado e está sendo verificado. Por favor, permanece na estação de trabalho, até segunda ordem. Localiza a saída de incêndio mais próxima e aguarde instruções.”

Tipo, os londrinos são tão comprometidos com o trabalho ao ponto de achar que um incêndio acaba de ser reportado e eu tenho que continuar trabalhando?

Pois bem. Um amigo um dia me explicou que a maioria dos disparos dos alarmes de incêndio são alarmes falsos ou coisas que podem ser contidas sem precisar evacuar um prédio todo. Entendo. Mas não compreendo.

Mas essa explicação deve ter lá seu fundo de verdade, já que na maioria das vezes a voz volta ao alto falante dizendo que o caso foi verificado e que não era nada relevante – e que posso seguir com a minha vida.

Só uma vez eu ouvi que realmente precisávamos evacuar o prédio. E não era treinamento. Pois quando é treinamento, isso é anunciado antes do alarme tocar.

Ah, e detalhe: o alarme toca uma vez por mês, ao menos. É que eles testam o alarme de incêndio mensalmente. A voz no alto falante sempre avisa: “atenção, o alarme de incêndio será testado e você não precisa tomar nenhuma ação, pois aqui você é pago para trabalhar!”

Não, espera. Essa parte do
“pago para trabalhar” eu adicionei – mas aposto que minha chefe pensa assim toda vez que o alarme toca…

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Onde há fumaça…

Há cerca de dez dias o prédio Grenfell Tower pegou fogo aqui em Londres. O incêndio, que começou no quarto andar e se alastrou pelo prédio de 24 andares rapidamente, não deu muita chance para quem morava nos andares mais altos do prédio e muita gente perdeu suas vidas.

O caso chamou a atenção da cidade toda, que começou a se perguntar se seus prédios, a maioria antigos, estão preparados para um caso de incêndio.

Meu apartamento tem dois alarmes de incêndios: um na sala/cozinha (é uma cozinha aberta integrada com a sala) e outro no corredor principal, na frente da porta de meu quarto.

Isso adicional aos alarmes de incêndio das áreas comuns do prédio.

Nesses 15 meses que estamos alugando o apartamento, nossos alarmes já foram inspecionados uma vez e os responsáveis voltarão a cada ano. Está em nosso contrato de aluguel.

Eu não me lembro de ter alarmes de incêndios em meu apartamento no Brasil. Ou no da minha mãe. Só nas áreas comuns do prédio. No sítio do meu pai eu tenho certeza que não tem…

Ter alarmes de incêndio dentro de casa já é uma cuidado maior do que eu estava acostumada no Brasil. Mas ainda assim não me parece que é suficiente.

O incêndio foi causado por uma falha em uma geladeira. Ano passado outro incêndio, de menores proporções, na mesma região, foi causado por falhas em uma máquina de secar roupas.

Quando observo as causas desses incêndios, minha preocupação passa a ser outra.

Pois colocar mais alarmes de incêndios, me deixar ciente das minhas rotas de fuga e etc, são ações que só vão me proteger de um incêndio já iniciado. E quais serão as medidas para se evitar que um incêndio se inicie?

A grande maioria dos apartamentos de Londres são alugados mobiliados e com todos os eletrodomésticos. Por conta disso, nós, locadores, ás vezes não sabemos a “procedência” da máquinas de lavar louça, da máquina de lavar e secar roupa, da geladeira, do freezer, do cooktop, do forno… ah, e nem sempre recebemos instruções de como usá-los.

Também temos combinações perigosas, como prédios velhos com eletrodomésticos novos e potentes conectados aos nossos velhos sistemas e redes de energia.

Eu sei que identificar, reportar o fogo e combatê-lo é super importante, não estou negando esse fato. Mas eu preferia que os esforços incluíssem formas de prevení-los com mais eficácia.

Enquanto eu não vejo nenhuma movimentação nesse sentindo – como obrigar os locadores a nos fornecer manuais, instruções e informações técnicas dos eletrodomésticos – eu sigo só usando a secadora de roupa quando estou casa.

Pequenas neuroses da vida moderna.

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Excesso de luz

Esse semana estamos com problema de luz. Excesso de luz, para ser mais específica.

Com o pico da primavera, o sol tem nascido cada dia mais cedo e se posto cada vez mais tarde.

Por cedo, entenda-se 4 e pouco da manhã. Por tarde, entenda-se 9 e pouco da noite.

São 17 horas de sol. E luz.

A janela do nosso quarto tem uma persiana ok, que até escurece o quarto quando Londres decide ser Londres e se manter cinzenta.

Mas quando chega a primavera… a persiana não dá muita conta. Já passamos por isso ano passado, já esperávamos. Mas essa semana… a persiana simplesmente desistiu.

Consequência disso é que não conseguimos dormir direito, principalmente eu, que sempre acordei com a luz do sol (eu sempre deixei a janela do meu quarto entreaberta durante a noite, para deixar o sol entrar de manhã, tenho esse costume desde a adolescência). Mas agora ele chega na hora que deveríamos estar engatados em um bom sono.

Mas já deveríamos ter aprendido. Ano passado foi a mesma coisa, eu paguei o preço por dormir pouco, vivia irritada. Uma colega de trabalho mandou eu comprar uma máscara para dormir (ou uma cortina blackout) e resolver o problema, mas não fizemos nada.

Mas dormir pouco também não está só relacionado com acordar mais cedo. Tem também o lado de ir para a cama mais tarde.

Pois como o sol de põe às 21 e tantas, até você perceber que já é “noite” leva um tempo. Então você estica sua tarde e, durante essa época do ano, você segue a vida como se não tivesse hora para dormir.

Às vezes você nem se dá conta que está jantando 22h50 ou voltando para a casa do bar às 23h00 em plena segunda-feira.

Tudo isso prejudica o sono (não o bar, o bar ajuda). Leva um tempo para você desacelerar, desligar e dormir. E quando você finalmente consegue… são só mais umas cinco horinhas até o sol nascer de novo!

Por isso hoje, quando a luz do escritório apagou às 19:25, eu agradeci por ter ficado uns minutos cercada pela penumbra e somente regada pela luz fraquinha da tela do computador.

Mas aí me lembrei que este é o sinal de que estava na hora de ir para casa. Ou para o parque. Ou, quem sabe, para o bar!

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Um minuto de silêncio

É a terceira vez esse ano que o país faz um minuto de silêncio.

Hoje foi pelas vítimas do ataque de sábado na London Bridge, a ponte que está na foto deste post. Os dois anteriores foram em respeito às vítimas dos ataques em Manchester e da ponte de Westminster.

Um minuto de silêncio é um minuto de silêncio. Todo país, significa todo o país.

Quinze minutos antes das 11h00, o auto-falante do prédio onde trabalho anunciou que um minuto de silêncio seria feito em homenagem às vítimas do ataque. As 11 em ponto a voz no auto-falante abriu a contagem.

E fez-se silêncio.

Quem estava ao telefone, se silenciou. Quem estava de bate-papo na impressora – não vou dizer quem – encerrou a conversa.

Hoje o Marcos estava em um evento, em um hotel, sala super cheia. Onze horas, silêncio. O palestrante se calou e todos se levantaram.

E no silêncio você lembra quantas vezes você já cruzou aquela ponte. Na maioria das vezes, a pé. Quantas vezes já parou no meio dela para capturar uma foto diferente da Tower Bridge. E quantas vezes já comemos no Borough Market, levamos até o Tedesco e também meu sogro lá para experimentarem a deliciosa raclete…

É assim que funciona aqui. Disciplina. Respeito. E antes de mais nada, uma parada para lembrar que a vida é curta, como um minuto.

Onze e um. Segue a vida.

Pois “We ❤️ London”.

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Ataque terrorista

Pausa para reflexão.

Toda vez que um ataque terrorista acontece, Londres muda de cara.

Você vê mais policiais nas ruas, mais armas. Aqui na cidade, principalmente em áreas turísticas, policial armado anda à paisana. Policial fardado normalmente não carrega arma de fogo e isso lhe atribui um aspecto mais amigável, incentivando as pessoas a se aproximarem, pedirem ajuda e informação.

Mas sempre depois de um ataque terrorista eles se permitem mostrar suas armas.

O primeiro ataque terrorista que me lembro nesss período em que estamos morando aqui foi quando um caminhão avançou contra um púbico na França, em Nice. Por conta desse ataque, o Chefe de Segurança Londrino deu um depoimento dizendo que não adiantava sermos ingênuos, precisávamos encarar a realidade: Londres é um grande centro e sempre estará no alvo de terroristas. Uma hora os ataques chegariam aqui.

Eu escutei aquela declaração e pensei: que pena – aqui não tem bala perdida, mas tem ataque terrorista!

Então veio um ataque ao aeroporto de Bruxelas. Naquele tarde, voltando para casa, um quarteirão acima do meu estava bloqueado pela polícia, eles checando identificação de algumas pessoas. Meu bairro é conhecido por ser uma concentração de comunidades de árabes e muçulmanos, estava claro o motivo daqueles policiais estarem ali.

Depois veio um ataque em Munique. Outro caminhão avançou sobre a multidão, em um mercado de Natal. Londres se protegeu bloqueando o trânsito em algumas ruas movimentadas, que geralmente concentram muito turistas. Mudou-se alguns procedimentos da troca da guarda, bloqueando a rua de uma forma diferente e a vida seguiu.

Além disso, Londres tem diversas barricadas de ferro protegendo calçadas e ruas. Algumas delas são móveis e podem ser “escondidas” no chão e erguidas quando necessário.

Essa barricada existe na frente no Big Ben. Ela tem capacidade para bloquear a rua toda, mas não protege a ponte que leva até ele. E, por ironia do destino, o primeiro ataque terrorista em Londres desse ano foi com um carro, avançando sobre os pedestres em cima da calçada da tal ponte. O terrorista, armando com uma faca, matou um policial fardado (logo, sem armas) e foi morto a tiros por um policial… à paisana.

E lá se foram as armas para as ruas novamente, dessa vez tinha sido na “nossa casa”, o sentimento de revolta é grande… mas passa. Assim como havia dito o Chefe de Segurança, é ingenuidade achar que aqui não vai acontecer. E aconteceu.

Passou-se um tempo e houve outro incidente. Dessa vez em Paris, na Champs Élysées. O ocorrido, que resultou em um policial morto (e o terrorista também), aconteceu um dia antes de embarcamos para a cidade.

Pegamos o trem no dia seguinte e na estação de Londres encontramos os polícias, mostrando suas armas e arrastando seus cachorros, fazendo-os cheirar todas as malas. Em Paris… tudo tranquilo. Nada parecia ter acontecido na cidade luz, que só continuou com as revistas rotineiras nas malas antes de se entrar em atrações turísticas movimentas.

Ontem colocamos mais um atentando na conta. Agora foi em Manchester. Cidade pacata, estive lá a trabalho ano passado. As armas, dessa vez, não deram as caras aqui em Londres, não notei nenhum movimento maior nas estações. Talvez eu note no final de semana, já que esse será prolongado e as pessoas devem movimentar os aeroportos e estações de trem para passar o “Bank Holiday” fora daqui, seguindo com suas vidas.

Tem uma coisa engraçada em relação a ataque terrorista que é a sensação de que sua vida tem que continuar. A gente fica esperando o próximo, já aprendemos que não dá para sermos ingênuos, isso faz parte da realidade de se morar na Europa.

E a cada ataque a gente vai ficando mais forte, se sentido mais revoltado, mas certos de que a vida tem que continuar.

Pois talvez essa seja a única arma contra o terrorismo. E assim como aqueles que moram no Rio de Janeiro aprendem a conviver com bala perdida, a gente vai aprendendo a conviver com o terror.

E segue a vida…

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Fika

Ontem recebi um convite via email para participar de um “Fika” semanal.

Nas últimas duas semanas (e pelos próximos dois meses) eu estou trabalhando com uma turma de consultores de uma “Big 4”.

Para quem nunca precisou contratar uma consultoria, “Big 4” é como nos referimos às quatro maiores firmas de consultoria do mundo.

Consultoria normalmente é sinônimo de profissionais jovens, em cargos importantes, trabalhando muito e ganhando pouco. Eu já sentei nesse cadeira (por duas vezes) durante a minha vida profissional, então eu sei bem como funciona.

Mas agora que eu já passei dessa fase e sou “Cliente”, fico observando esse universo com sentimentos misturados.

Eu já comentei em um post anterior que londrino “da gema” vem para o escritório para trabalhar e evita ficar fora da mesa por muito tempo, para não parecer o contrário. Não tem conversa fiada com os colegas e o almoço é na mesa, para garantir a eficiência.

Aí observo que em casos de consultoria esse comportamento é ainda mais acentuado. A situação é tão relevante, que chegamos ao ponto de precisarmos eleger dois representantes, um do meu banco e outro da consultoria, para cuidar da integração do time.

A gente está trabalhando juntos como um time só, então temos que tentar nos entrosar para entregar o trabalho no prazo (super curto).

Eu, como boa brasileira, estava esperando receber um convite para uns “drinks” (aqui não se diz happy hour – beber com os colegas de trabalho depois do expediente é dito como drinks ou “team social”). Mas fui convidada para um… fika.

Como muito bem explicado no convite, o tal fika é um verbo sueco, que poderia ser traduzido como uma “pausa para o café”.

E lá na Suécia esse verbo é super levado a sério: eles param uma ou duas vezes ao dia para tomar um café, comer um bolo, bater um papo com os colegas.

Mas a nossa versão semanal fika, que poderia ser o equivalente a um chá da tarde londrino, está marcado para acontecer em 15 minutos.

Toda a terça-feira, aqueles interessados em fazer um “fika” vão se encontrar na entrada do nosso andar, próximo ao elevador. De lá seguiremos para um café (que descobri hoje tem um convênio com a Consultoria: os consultores vão beber café de graça toda semana!).

Quinze minutos é o tempo que levamos para pegar o elevador, sair do prédio, caminhar até o café, fazer o pedido e voltar. Mentira: deu um pouquinho mais de 15 minutos.

Interação de verdade, não rolou muito. Rolou um papo de elevador durante todo o caminho, mas acho que por ter sido o primeiro, as pessoas ainda estão tímidas. Depois deve melhorar.

No geral, a idea é boa. Mas fico me perguntando por que essa molecada precisa colocar na agenda uma pausa para o café?

Para mim, que não consigo ir até a impressora sem parar para conversar com alguém, marcar dia e hora para tomar um cafezinho é tão desnecessário. Até por que eu não gosto de café…

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O jantar de cada dia

Nossa rotina de jantar começa cedo e funciona assim: logo depois de almoçar, o Marcos me manda uma mensagem, dizendo o que ele comeu.

As vezes estou em uma reunião e chega uma mensagem dele: “Salmão teriyaki”, ou “Wrap de falafel”. Pronto, fui notificada!

Baseado no que ele comeu no almoço, eu decido o que vai ter para o jantar.

Estamos tentando ser mais saudáveis, então esse foi o jeito que encontrei de “controlar” a alimentação dele, sem impedi-lo de comer o que ele gosta.

Mas isso só funciona porque, como todo bom londrino, a gente vai ao mercado todos os dias depois do trabalho, para comprar os ingredientes do jantar.

Sim. Todos os dias. Mercado. Depois do trabalho. Para comprar os ingredientes do jantar. Como a grande maioria dos Londrinos fazem.

Isso tem uma consequência engraçada. Como as pessoas normalmente estão no mercado só para comprar poucas coisas, que serve só para cobrir o jantar e talvez o café da manhã do dia seguinte, elas se acostumaram a não usar as cestas de compra.

Imagine: você chega no supermercado (relativamente cheio) entre as 17:15 e 18:00 e você vê as pessoas carregando os mantimentos nos braços. Parece um filme de zumbi (ou algo assim…)!

E não importa o que estão comprado: dois tomates, uma lata de atum e uma cebola. Pronto. Pegou, levou para o caixa. Sem cestinha.

Vai fazer um macarrão? Uma caixa de spaghetti, molho de tomate, queijo parmesão. Ajeita tudo na mão e segue para o caixa.

No começo eu achava estranho. E demorei para me adaptar: ou sobrava muito espaço na cesta ou eu não pegava a cesta e não conseguia equilibrar tudo o que comprava só com braços.

Hoje já estamos mais experientes. Quando entramos no mercado, Marcos já me pergunta: “Precisa de cesta”? Ali já decidimos o tamanho da compra.

E eu nem me lembro quando foi a última vez que pegamos o carrinho de compras! (Para as compras do Natal, talvez?)

Pegar a cesta de compras faz parte de um outro truque: com ela garantimos que só compraremos o que conseguiremos carregar.

Lembre-se: não temos carro, não pegamos Uber, nem táxi… então as compras tem que caber também na nossa força, já que tudo voltará para casa a pé, carregado pela gente.

Isso também nos ajuda a saber quantas sacolas vamos precisar. As sacolas aqui são pagas (£0.05), então todo mundo carrega uma sacolinha na bolsa ou na mochila para evitar pagar os centavos de Libra quando vai ao supermercado (ou qualquer outra loja). As vezes eles carregam as compras na própria mochila, sem frescura.

Antes eu achava desnecessário, poxa são só alguns centavos. Até um dia que calculei errado e tive que carregar algumas das compras dentro da minha bolsa. Não julgo ninguém mais desde esse dia…

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Transformações

Semana passada eu trabalhei de casa. Antes do almoço fui correr no parque e me dei conta que eu me transformei em uma pessoa que eu sempre admirei.

Era um pouco depois do meio dia, fazia um dia bonito, ensolarado, poucas nuvens no céu.

Eu escolhi dar uma volta no lago que fica na frente da residência oficial do Príncipe William, antiga residência da Princesa Diana. Eu sempre quis ver o príncipe pessoalmente… vai que rola?

As vezes eu me programo para ir ao parque antes do trabalho. O esquema é simples: na hora que o Marcos sai para trabalhar, eu saio com ele. Ele vai para o metrô e eu vou para o parque, dando tempo de sobra para me exercitar e voltar para trabalhar (de casa) as 9:00 da manhã.

Teve uma época, quando eu era solteira e morava ainda com meus pais, que eu tinha a responsabilidade de levar minha irmã para a faculdade. Ela estudava de manhã, eu deixava ela  na Vila Olímpia e ia para o trabalho, era caminho.

O problema é que minha irmã sempre foi preocupada com o relógio e me fazia sair super cedo de casa para evitar o trânsito e não chegar atrasada.

No caminho, passámos pelo Parque Villa Lobos e, vira e mexe (principalmente no verão), o parque estava lotado de pessoas andando, correndo, pedalando…

Eu sempre admirei aquelas pessoas. Eu sempre me perguntei o que será que elas faziam da vida, que as deixavam com tempo para ir ao parque antes do trabalho (se é que trabalhavam), ao invés de estarem dentro de um carro, no trânsito, as 7:10 da manhã.

Hoje eu sou uma dessas pessoas. Eu posso ir ao parque pela manhã. Ou durante o almoço. Ou as 17:00, logo depois do expediente. Claro que não consigo ir todos os dias, mas já fico feliz com duas vezes por semana.

Eu me transformei em uma pessoa que eu sempre admirei.

Hoje eu também consigo fazer as minhas próprias unhas. Eu sempre admirei as pessoas que tinham as unhas muito bem feitas, mas feitas por elas mesmas. Hoje eu sou essa pessoa. Eu sou capaz de ter as unhas pintadas sem precisar ir a uma manicure. Claro que desperdicei muito esmalte e assisti muito tutorial na internet para chegar até aqui… mas o tempo investido valeu a pena!

Perguntei ao Marcos se ele se orgulha de alguma coisa desse tipo, se ele se transformou em uma pessoa que ele admirava. A lista dele é bem simples, mas quem o conhece saberá que é relevante: ele está impressionado por conseguir chegar no trabalho antes das 9:00 e almoçar em uma hora (gente, ele chega adiantado no trabalho, é como se um milagre acontecesse todos os dias!).

O que precisamos agora é nos tornamos aquelas pessoas que programam férias com um ano de antecedência. Essa é a nossa próxima meta. Nós somos pessoas que sempre decidimos as coisas nas últimas e isso, aqui, não funciona. Não é nem uma questão de nos tornarmos pessoas melhores. É também uma questão de bolso: com antecedência, os preços de passeios, passagens e hospedagem são em torno de 70% mais baratos.

Também queremos ser aquele casal que divide as tarefas de casa. Mentira, não queremos. Essa transforação sou eu quem quero, o Marcos não faz muita questão…

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Viagem de trem

Final de semana passado viajamos de trem. Eu adoro viajar de trem.

Dessa vez fomos a Paris. É a segunda vez que vamos a Paris de Eurostar, a companhia de trem que faz a conexão direta Londres-Paris em um pouco mais de duas horas.

A primeira vez que viajamos, compramos as passagens por £29 cada trecho. É relativamente caro. Já comprei passagem de ida e volta para Copenhagen, na Dinamarca, por £35 e para Berlin, na Alemanha, por £43.

Mas viajar de avião tem um custo que as vezes chega a ser mais caro que a própria passagem: chegar e voltar do aeroporto. No caso do trem, esse custo já é mínimo – ou às vezes já está pago, se você tem um cartão mensal do metrô, por exemplo.

Como a maioria dos terminais de trens internacionais são bem localizados e centrais, é super fácil chegar de metrô, ônibus ou até mesmo de táxi.

No caso da Eurostar, que fica na Estação St. Pancras (que teve seu prédio eternizado pelo filme do Harry Potter e é imagem que ilustra o post de hoje), há seis linhas de metrô que te deixam direto na estação. Mais fácil impossível.

Uma vez na estação, todo o procedimento é bem parecido com o de uma viagem de avião: tem carrinho para as malas na entrada, tem anúncios no auto-falante, tem painel mostrando os horários e os portões de embarque – no caso aqui, as plataformas.

Para chegar até o trem você também tem que passar por uma inspeção de segurança, que involve raio-x das malas e pela imigração, assim como em um aeroporto.

A imigração dos dois países são feitas juntas, no local de origem do trem. Ou seja, se você está embarcando em Londres, você já se apresenta para imigração de saída da Inglaterra e de entrada na França ainda em Londres.

Mas não se engane: isso não significa que a imigração é mais fácil. Eu já tive que responder perguntas “pegadinhas” voltando de Paris para a imigração da Inglaterra, mesmo apresentando meu cartão de residente…

As inspeções de segurança e imigração são normalmente iniciadas uma hora antes do horário previsto para a saída do trem. Depois disso você esperará o anúncio de sua plataforma em uma sala de embarque.

Quando a plataforma é anunciada pelo alto falante e o embarque é liberado, todo mundo corre para o trem. O trem sai religiosamente no horário, então não dá para vacilar.

O seu cartão de embarque trará a indicação do seu assento e em qual vagão ele está localizado.

Uma das coisas complicadas é que suas malas estarão com você o tempo todo, não há despacho. Então você tem que administra-las (e torcer para achar um bom espaço na entrada do vagão para deixá-las, caso sejam grandes).

Uma vez acomodado, você pode curtir sua viagem! A maioria dos trens hoje tem tv e Wi-Fi gratuito. Há também bares em alguns vagões (o serviço de bordo só virá até você se estiver viajando de primeira classe, caso contrário você terá que ir até ele).

Mas o que mais me atrai nessas viagens são as paisagens. Enquanto em um avião a maior atração pela janelinha é a decolagem e o pouso, no trem você tem a paisagem te acompanhando o tempo todo.

E tudo isso sem turbulência…

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Feriados

Oficialmente, são oito feriados por ano em Londres, chamados “Bank Holidays“.

Se algum feriado cai em um final de semana, a gente não perde o descanso e a parada é feita em um “dia substituto” (ou “substitute day”):  normalmente uma segunda-feira seguinte ao feriado.

Alguns feriados são equivalentes aos do Brasil, como o Ano Novo (1° de janeiro), a Sexta-feira Santa, a Páscoa e o Natal (25 de dezembro).

Outros são próprios da região, como o “Boxing Day” (26 de dezembro, um dia depois do Natal: para aquele descanso merecido depois da comilança – e as lojas darem as largadas em suas liquidações de fim de ano), o “Early May Bank Holiday” (sempre na primeira segunda-feira de maio), o “Spring Bank Holiday” (para celebrar a primavera, sempre na última segunda-feira de maio) e o “Summer Bank Holiday” (na última segunda-feira de agosto, para celebrar o verão).

No final, nenhum feriado aqui tem data fixa, o que não é nenhuma novidade para a Sexta-feira Santa e Páscoa, por exemplo.

Mas um ganho é o Domingo de Páscoa, sempre celebrado em um “substitute day” – chamado “Easter Monday” (ou Segunda-feira de Páscoa). Assim, temos sempre dois dias de feriado para a Páscoa – e um super final de semana prolongado!

Já o Natal é sempre uma surpresa. Seguindo a regra do “substitute day”, se 25 de dezembro cair em um final de semana, o feriado será no próximo dia útil.

Em 2016, o Natal foi celebrado em um domingo e o feriado de Natal foi movido para uma terça-feira (já que segunda-feira já era feriado – o tal do “Boxing day”).

Do ponto de vista prático, a maioria dos feriados fica concentrado no primeiro semestre e são favorecidos pela presença do Sol e das temperaturas mais elevadas, o que realmente nos permite curtir os dias de folga.

Do ponto de vista de quem trabalha, falta feriado. Se no Brasil a gente tinha quase um feriado por mês (sem contar a grande parada para o Carnaval), aqui não é bem assim.

Quando o mês de Maio termina, levando embora seus dois feriados, a gente perde as esperanças, torcendo para chegar logo agosto. Depois do “Summer Bank Holiday” – ou “Summer Break”, a gente se arrasta até as festas de final de ano, tendo que marcar umas férias   aqui e ali para sobreviver.

Esse ano a Rainha Elizabeth II comemorou seus 65 anos de trono, o tal do Jubileu de Safira. Talvez a gente ganhe um feriado extra em junho por conta disso. Claro que não é nenhum Carnaval brasileiro… mas quem é que vai reclamar de feriado  – principalmente quando se tem tão pouco?

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Férias sem espera

Você começa a trabalhar em Londres e já tem direito a férias. Simples assim.

Sem período aquisitivo, sem esperar 365 dias para poder descansar. Sem burocracia. Chegou, já pode marcar férias.

Normalmente você tem direito a 28 – 30 dias úteis de férias – ou “annual leave”, como se diz por aqui. Sim: dias úteis. São cerca de 6 semanas por ano. E o melhor: você pode tirar um dia de cada vez. Ou meio dia, se preferir.

Se começar a trabalhar ao longo do ano – o que é bem comum – você tem direito a férias proporcionais. Por exemplo: eu comecei a trabalhar dia 29/02/2016 e, por contrato, tenho direito a 28 dias de férias por ano. Logo, em 2016, eu tive direito a férias proporcionais: 23,5 dias (olha o meio dia de férias ai, gente!)

Meio dia de férias é incrivelmente útil para viagens. Você pode comprar uma passagem para as 16h de uma sexta-feira, evitando a hora do rush e voltar em uma segunda de manhã, aproveitando o final de semana todinho. Ou você pode tirar metade do dia para fazer algo que só vai te levar… metade do dia – não sacrificando o dia todo de trabalho (ou de férias).

Eu tirei meu primeiro dia de férias aqui em Londres cerca de 50 dias depois que comecei a trabalhar. Tirei um dia só, era só que o precisava mesmo. Depois tirei mais quatro dias, emendei um feriado e aproveitei o fim de verão.

Seis semanas de férias por ano é coisa para caramba e se você não se programa direitinho acaba faltando dias para marcar os descansos. A maioria das empresas te permite transferir 5 dias de férias para serem gozadas no ano seguinte, durante o primeiro trimestre. Mesmo assim, é importante se planejar para não acabar perdendo férias.

O Marcos, por trabalhar com informações confidenciais e ter um cargo considerado de “confiança”, é obrigado a ficar 10 dias consecutivos fora do trabalho. Ainda assim, não temos a exigência de tirarmos 10, 15, 20 ou 30 dias seguidos de férias. Para o “block leave” dele – também conhecido com “consecutive leave”, é possível combinar férias, feriados e finais de semana. Dá para fazer um bem bolado, e tirar só alguns dias, sem “queimar” 10 dias de férias.

Ao contrário do Brasil, aqui funcionário não vende férias: é mais comum em algumas empresas o funcionário comprar mais dias do que perder. O meu banco é uma dessas empresas, que permite a compra de dias. O processo é bem simples, mas deve ser feito no início de cada ano (planejamento é realmente relevante quando se trata de férias por aqui).

Pelo que sei,  a regra das férias é consistente em toda Europa, com algumas pequenas variações. Só não na França. Lá eles tem mais dias de férias – e mais feriados também, diga-se de passagem…

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Rotina de trabalho

A rotina de trabalho aqui em Londres é bem interessante.

Nosso contrato é de 7 horas por dia, 35 horas por semana. Das 9 da manhã as 5 da tarde. Posso trabalhar de casa até duas vezes por semana. Marcos também pode trabalhar de casa, mas a rotina dele é mais pesada, ele quase nunca usa esse privilégio.

O pessoal evita ficar fora da mesa de trabalho por muito tempo. Se a reunião está agendada para meia hora, ela durará 25 minutos, com cinco minutos para A.O.B. (“Any Other Business” – ou qualquer assunto adicional à agenda estabelecida).

O almoço é rápido – e na mesa do trabalho, na maioria das vezes. É comum o pessoal trazer comida de casa. Mas a outra alternativa é buscar uma “marmitinha” em algum “fast” lugar ou no supermercado mais próximo e voltar para comer no escritório – ou sentado na grama, se estiver sol (sim, faz sol em Londres).

Diferente dos nossos costumes brasileiros, não tem cafezinho depois do almoço. E nem uma passadinha rápida no banheiro para escovar os dentes. Você aqui é pago para trabalhar e não para perder tempo com sua higiene!

Quando o relógio bate as 5p.m., a grande maioria deixa o escritório, feliz da vida e sem culpa. Os destinos são os mais variados: futebol com os amigos, academia, cursos, salão de beleza. Tem gente que vai para casa mesmo (aqueles que moram fora de Londres e enfrentam uma viagem um pouco mais longa). E tem aqueles que dão uma passadinha no bar, só para variar um pouquinho (uma observação: sim, os londrinos tem mais horas de bar do que urubu de voo).

Dificilmente leva-se trabalho para casa. Se algo é urgente e importante, será terminado no escritório, com hora-extra.

No meu prédio, as 17:45 o ar-condicionado é desligado. Não é esperado que tenha alguém no escritório até tão tarde.

Aqui estou contando a nossa rotina. A rotina de uma “Senior Auditor” e de um “Associate  Director” de dois Bancos de investimento locais (mas de grande porte).

O Marcos trabalha mais do que eu, ele está naquela lista de pessoas que ficam até um pouco mais tarde no escritório para terminar o trabalho. Mas nesse quase um ano que ele está trabalhando aqui, ele só trouxe trabalho para casa duas vezes, e foi quando ele ainda estava se adaptando às atividades.

Comparada com a rotina que tínhamos no Brasil, hoje somos mais eficientes. E uma das coisas mais importantes que aprendemos é que “done is better than perfect” (ou, como dizia um ex-chefe meu: “o bom é inimigo do ótimo”).

Eu me pergunto quase todos os dias se eu serei um dia capaz de me adaptar novamente a rotina de trabalho do Brasil. Ainda mais se tivermos filhos: mães tem mais flexibilidades.

Mas vou deixar para falar dessas flexibilidades em outro post…

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Sem TV

Não temos televisão. Desde quando nos mudamos para nossa primeira casa aqui em Londres, no dia 15/03/2016, nos tornamos uma família sem televisão.

Os motivos para não termos TV foram vários. Hoje se resume a um motivo só: preguiça.

Alugamos um apartamento mobiliado, mas infelizmente a TV não faz parte do inventário. O aluguel inclui tudo: de toalha de banho a máquina de lavar. Mas a TV… não.

No começo achei bom: sem TV, a gente não teria motivos ou desculpas para ficarmos em casa. E foi o que realmente aconteceu: nos nossos primeiros meses aqui, que coincidiram com a primavera e o verão londrino, exploramos muito a cidade.

Ai chegou o inverno e decidimos comprar uma TV. Procuramos alguns modelos, vimos algumas opções. Mas não trouxemos nada para casa.

TV aqui não é cara. E tem diversas opções. O modelo que queremos, uma Sony 4K está em torno de £600 – 800.

Há um custo anual de £147 referente ao “TV licence“, devido ao Governo Inglês por todo mundo que mora aqui e assiste qualquer tipo de broadcast, seja por TV ou por outros aparelhos. Este é um custo adicional à um provedor de tv a cabo, e tem o objetivo de financiar a BBC – o canal de TV local que não tem comercias (e logo, não tem fontes de rendas).

Não temos mais motivos para viver sem TV.

Mas acho que nos acostumamos a não ter TV em casa e nos adaptamos muito bem: iPad, celular, laptop. Um bom papo depois do jantar. O jornal do metrô para acompanhar as noticias. Livros, para nos mantermos ocupados. E o bom e velho Netflix para um filme ou uma série.

O Marcos sente mais falta da TV do que eu, mas agora a primavera chegou novamente, então não sei se ele vai ter tempo para se importar tanto com isso.

Quem sabe no próximo inverno voltamos a dar prioridade ao assunto…

Informações sobre o UK TV Licence

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